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A importância de se trabalhar o autoconhecimento nas escolas


Data de Publicação :: 08/07/2019
Por Xavana Celesnah

Muito tem se falado a respeito de “propósito” na vida profissional. As redes sociais estão cheias de propagandas de cursos online com coaches empenhados em ajudar as pessoas a encontrarem um trabalho mais significativo. Esse verdadeiro boom de coaches focados em despertar o propósito de vida nas pessoas demonstra o alto grau de insatisfação nos ambientes de trabalho. Há poucas décadas atrás, não existia esse questionamento tão intenso sobre a relação entre a vida pessoal e a carreira profissional. As pessoas terminavam seus cursos universitários, conseguiam um emprego e seguiam suas jornadas trabalhando muitas vezes numa mesma empresa por toda a vida, sem refletir tanto sobre a motivação, o significado ou o alinhamento real dos seus valores com as atividades que desempenhavam em suas profissões.

O porquê de estarmos vivendo uma geração de buscadores de uma vida mais plena é complexo de se entender, mas é notável que solucionar apenas o lado financeiro da vida não está mais satisfazendo a maioria dos profissionais, de todas as áreas. Diante dessa verdadeira epidemia de buscadores de uma carreira com mais significado, as escolas podem ter um papel fundamental para a formação dos futuros profissionais, ao começar a realizar atividades que estimulem em seus estudantes o olhar para o autoconhecimento. Incluir na educação as bases para a capacidade de lidar com as habilidades socioemocionais vai proporcionar o crescimento de pessoas mais maduras para lidar com conflitos, decisões e situações que despertem algum sentimento negativo.

A importância do autoconhecimento nas escolas

como as escolas poderiam trabalhar o autoconhecimento ?

Quando falamos em escola, estamos essencialmente nos referindo a um local focado no desenvolvimento pessoal. O conceito de desenvolvimento varia muito de acordo com a perspectiva de cada gestão escolar e de cada abordagem pedagógica, mas as visões que supervalorizam o aprendizado de conteúdos relativos às disciplinas em detrimento dos relacionamentos humanos já não estão sintonizadas com a mudança de perspectiva e de valores que estamos vivenciando.

O tradicional acúmulo de conhecimentos sobre todas as disciplinas continua sendo importante, principalmente quando existe uma compreensão de que todas estão, de alguma forma, interligadas. Óbvio que para ser aprovado numa prova como o Enem não se pode dispensar a capacidade do aluno de memorizar e raciocinar a respeito das áreas do conhecimento aprendidas durante seu histórico escolar.

Mas, esse antigo modelo educacional está focando o aprendizado apenas no exterior, em conteúdos externos ao dia a dia dos alunos. Notadamente, as pessoas que foram educadas dessa maneira estão chegando à vida adulta com uma necessidade imensa de aprender mais a respeito de si mesmas, já que nas escolas pouco ou quase nenhum conhecimento foi estimulado nesse sentido.

A gestão escolar tradicional, no máximo, oferece testes vocacionais aos estudantes quando estão perto das provas do Enem. Mas, esses testes são superficiais e hipotéticos, principalmente porque os alunos provavelmente estão parando para refletir a respeito de si mesmos apenas naquele momento. O autoconhecimento, se trabalhado desde a educação infantil, pode ajudar no crescimento e desenvolvimento de pessoas mais saudáveis, mais capazes de saber escolher o que as faz, de fato, felizes; evitando fazer escolhas para satisfazer às expectativas da sociedade ou da família.

Autoconhecimento nas escolas

Como as escolas poderiam trabalhar o autoconhecimento? Em primeiro lugar, é necessário que os gestores escolares tenham consciência de que a base da personalidade humana é criada nos primeiros sete anos de vida de uma criança. As crenças e condicionamentos formados nessa fase irão acompanhar o indivíduo por toda sua vida. Daí a importância de se iniciar na educação infantil um processo de aprendizado no sentido de habilitar a criança a saber fazer escolhas e decisões e também a lidar com emoções desagradáveis, como raiva, frustração, inveja, ciúme, entre outras.

Nas escolas e em casa, as crianças estão constantemente aprendendo as qualidades que devem exercer, como a bondade, a capacidade de compartilhar e dividir, mas não lhes é ensinada a competência para enfrentar e resolver questões problemáticas. Na maioria das vezes, as emoções negativas são reprimidas ao invés de tomadas como um momento para se refletir a respeito de determinada situação. Assim, as pessoas vão crescendo completamente inabilitadas para encarar seus conflitos interiores e tornam-se indivíduos com sintomas de insegurança, timidez exacerbada, ansiedade, depressão.

O estímulo à competitividade torna esse processo ainda mais danoso porque não são todos os que conseguem tirar as melhores notas em todas as matérias, por exemplo. E, ao se sentirem incapazes de corresponder às expectativas dos pais e da escola, muitos estudantes ficam com a autoestima e a autoconfiança abaladas. Esses sentimentos precisam ser conversados em sala de aula para que as crianças, e mesmo os adolescentes, possam perceber que é possível superar suas dificuldades e aperfeiçoar suas competências para lidar com a frustração, aumentando sua capacidade de gerenciar conflitos interiores e seguir uma vida saudável, onde está “ok” não ser o melhor em tudo.

Ao aprender a habilidade de auto-observação nas instituições de ensino, os alunos passam a refletir mais e modificar algum comportamento que não os está fazendo bem. Tendo, dessa forma, uma melhor percepção para fazer escolhas mais conscientes para si mesma e para o ambiente ao seu redor. Claro que para que esse processo de amadurecimento emocional seja ensinado nas escolas, é necessário não apenas capacitar os professores para se tornarem capazes de abordar essas questões em sala de aula, mas também estimular o autoconhecimento nos profissionais de todos os setores da instituição de ensino, tanto dos setores acadêmico e pedagógico quanto dos setores administrativo e financeiro.

A escola é um local de relacionamentos humanos e quando as pessoas que estão convivendo neste ambiente passam a modificar os seus valores de uma visão competitiva e excludente – baseada no mérito para os que estão em primeiro lugar – para uma visão cooperativa e includente – baseada no respeito às diferenças de dons e talentos – elas estarão modificando, de fato, as crenças e princípios de toda uma sociedade. A partir do autoconhecimento, cada indivíduo passa a se amar e a se respeitar mais, e, consequentemente, se torna mais apto para respeitar o outro.

Mesmo instituições de ensino como faculdades e cursos de pós graduação, que trabalham, em sua maioria, com adultos que não tiveram esse tipo de diálogo desde a infância, também podem incluir em sua filosofia ações que levem ao amadurecimento emocional. Seja por meio do debate em sala de aula ou de alguma atividade extracurricular, é possível iniciar reflexões que levem aos estudantes mais aprendizado a respeito de quem são eles mesmos. E, a partir dessas práticas de autoconhecimento, cada um terá mais consciência das suas prioridades e valores, sem a necessidade de se comparar constantemente com os outros.